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Notícias Unisite

23/08/2016 - 13:06:10

JOGOS OLÍMPICOS: AINDA LONGE DE SEUS IDEIAIS
Por Roberto Musatti
ALTERA O
TAMANHO DA LETRA


Até que a idéia do Barão de Coulbertin não era ruim – reeditar em 1896 os jogos da antiga Grécia em Olímpia que começaram em 776 A.C e duraram até 393 D.C. A idéia era o congraçamento de todos os países, esquecendo as velhas rivalidades sem fim (principalmente depois da derrota francesa para o Império Austro Húngaro um ano antes). O problema é que mesmo no correr de todos esses anos a realidade ficou distante da intenção sem que se tenham grandes melhoras no horizonte – inimigos continuam se congraçando muito pouco, tanto por orientação de dirigentes como pelos atletas participantes, trazendo a política para o esporte irremediavelmente.

Uma visita aos últimos 80 anos de Jogos pode revelar que o otimismo desta festa que deveria ser de paz e incentivos ao entendimento entre os povos, pouco fez neste sentido apesar de contar com mais participantes que a própria ONU. O uso dos Jogos como marketing político, nacionalismo e sucesso de idéias, fez com que a cada anos vejamos o despreparo dos dirigentes e/ou da organização de paises sede em lidar com estes sentimentos que pouco tem de espírito Olímpico.

Em 1936 em Berlim, a Alemanha que tinha sido agraciada com os Jogos como uma forma de traze-la de volta os convívio das nações depois da 1ª Guerra Mundial, viu Hitler usar os Jogos como uma forma de expressão da superioridade ariana, a base da ideologia nazista que acabaria resultando no Holocausto. As vitórias e 4 medalhas de ouro do corredor afro-americano Jesse Owens no Estádio Olímpico desgostaram tanto Hitler a ponto de fazê-lo deixar o local prematuramente antes do pódio. Entretanto Owens ficou amigo de seu rival alemão Luz Long, morto na 2ª Guerra Mundial, a ponto de ajudar sua família depois da guerra.

Em 1948 em Londres, a primeira depois da Guerra, nem as duas Alemanhas ou o Japão foram convidados pelo ressentimento ainda forte na época. Em Helsinque na Noruega em 52, a URSS só aceitou em participar no ultimo momento, se tivesse alojamentos fora da vila olímpica, longe dos atletas do ocidente. Era o inicio da ‘guerra-fria’. Em 1956 em Melbourne, Austrália, em protesto pela invasão da Hungria pelos soviéticos, Espanha, Holanda e Suiça não comparecem. Idem a China pela participação de Taipei, assim como Iraque, Líbano e Egito pela Crise de Suez de Ingleses, Franceses e Israelenses. Mas o pior estava por vir na final de pólo j aquático justamente entre URSS e Hungria com brigas na piscina e nas arquibancadas que acabaram vibrando com a vitória da Hungria.

Podemos saltar para 1968 nas Olimpíadas do México marcadas pelo protesto no podium de dois atletas afro-americanos fazendo o gesto desafiador dos Panteras Negras em pleno Hino Nacional Americano que resultou em suas expulsões da Olimpíada. Ou do escândalo das nadadoras da Alemanha Oriental, claramente ‘turbinadas’ que conquistaram boa parte das provas. Era a o auge da guerra-fria.
Infelizmente os Jogos que se seguiram foram os de Munique que novamente deveriam reabilitar a Alemanha no cenário político internacional. O que se viu foi terroristas palestinos do Setembro Negro seqüestrando e matando boa parte dos atletas da delegação israelense. Os jogos continuaram após apenas 36 horas de interrupção sem nenhuma homenagem aos mortos.

Em 1976 em Montreal, 30 nações africanas boicotam os Jogos pela participação da Nova Zelândia que havia feito um jogo de Rúgbi na África do Sul. Em 1980 em Moscou, os EUA e mais 40 nações boicotam os Jogos pela invasão da URSS no Afeganistão – foram os jogos modernos com o menor numero de participantes. Em 1984 em Los Angeles, foi a vez dos Soviéticos e mais 15 nações socialistas boicotarem os Jogos em represália. Em 1992 em Seul foi então a vez da Coréia do Norte, Cuba e Nicarágua boicotarem em protesto. Para Cuba e Castro, um desastre, pois Castro usava o esporte como propaganda do sucesso de seu modelo de governo.

Em 2012 em Londres, com medo de ferir suscetibilidades de sua crescente população islâmica, a Inglaterra se recusou a fazer homenagem aos atletas israelenses mortos em Munique enquanto o campeão iraniano de judô não compareceu para sua luta contra o atleta de Israel, alegando problemas físicos.

Mas infelizmente os incidentes vieram também para o Rio 2016. No dia da abertura dos Jogos, os atletas de Israel foram impedidos de entrar num ônibus onde estavam os do Libano pelo chefe da delegação árabe que no dia seguine foi considerado herói pela imprensa de seu país. Os princípios do Barão ainda não chegaram ao mundo islâmico - no absurdo do judoca Joud Fahmi da Arábia Saudita não comparecer à sua luta para evitar em caso de vitória ter que enfrentar um adversário de Israel. Ou no lutador de boxe egípcio El Shehabi, pressionado pelas redes sociais de vários paises islâmicos a também não comparecer à luta contra seu oponente de Israel. Ou no presidente do Comitê Olímpico Palestino que reafirma ser contra qualquer gesto de aproximação esportiva com Israel e prega o terrorismo, coerente com suas origens de um dos fundadores da Fatah - grupo terrorista palestino do já morto Yasser Arafat.

Assim, seria muito bom que realmente os Jogos fizessem o mundo esquecer suas diferenças, suas lutas, suas disputas nem que por apenas 15 dias - sem os interesses comerciais, a ideologia e a política que transformam os confrontos esportivos nas arenas como mero detalhe.

Nada melhor que isto ocorra na terra do samba e carnaval que assim como na Copa, os brasileiros transformaram numa grande festa e exemplo para o mundo como foi a Abertura por todos elogiada: neste dia 14 de Agosto o que não foi feito em Londres será feito no Rio pelo COI, Prefeitura da cidade e a Organização dos Jogos: a justa homenagem aos 11 atletas mortos em Munique, na pedra fundamental do monumento a todos os mortos em Olimpíadas modernas que será tradição daqui para frente.

Vamos assim nós brasileiros, inovar, abafar nossas discórdias e contrariar , o titulo do artigo de T.D. Sisk: “ Rio 2016: Uma guerra sem armas” .

Roberto Musatti - Economista (USP), Mestre em Marketing (Michigan State) e Professor da Reges