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Notícias Unisite

11/03/2010 - 08:30:30

Duas pessoas que conversam apenas pela Internet podem ser consideradas amigas
Até que ponto duas pessoas que conversam pela Internet, ou melhor, que têm apenas esse canal como comunicação, pois nunca estiveram fisicamente em contato, podem ser consideradas amigas? Essa questão é um dos pontos que Lívia Godinho Nery Gomes aborda em sua tese de doutorado em Psicologia Social – “Implicações políticas das relações de amizades mediadas pela internet” – defendida em fevereiro deste ano no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Em entrevista, Lívia conta à Agência Notisa detalhes da pesquisa iniciada em 2006. O estudo, que foi orientado por Nelson da Silva Junior, professor livre docente da USP, e contou com o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), revelou, entre outras coisas, que as amizades virtuais não apresentam o caráter frívolo suposto por parte da opinião pública.
ALTERA O
TAMANHO DA LETRA



Notisa – Qual foi a metodologia utilizada no seu trabalho?

Lívia – A metodologia de pesquisa foi a etnografia virtual. Constituíram-se, como objeto de estudo etnográfico, as narrativas, sob a forma da palavra escrita, referentes às relações de amizades mediadas pela internet ou apenas iniciadas através dela. Tais narrativas foram obtidas através de entrevistas realizadas online via MSN. A entrevista foi composta por perguntas abertas de modo a permitir que os sujeitos ficassem à vontade para escrever sobre suas histórias de amizade travadas na internet. Todas as entrevistas foram realizadas em tempo real, através da internet via MSN. O trabalho de campo foi iniciado com o envio de e-mail a minha lista de contatos, no qual expliquei brevemente o tema de pesquisa sobre amizade mediada pela internet e foi solicitada a colaboração dos amigos para divulgar e encaminhar meu e-mail para as pessoas que eles conheciam que pudessem ter amigos virtuais ou que tivessem começado alguma relação de amizade pela internet. A partir desse e-mail, obtive respostas de amigos que se disponibilizaram a dar entrevistas, recebi algumas mensagens de pessoas de diferentes cidades do Brasil e também recebi indicações de pessoas com seus respectivos e-mails para que eu pudesse entrar em contato. Portanto, foram entrevistados adultos na faixa etária de 24 a 41 anos de idade, que estabeleceram contato espontâneo através do e-mail da pesquisadora (eu). Todos eles preencheram e enviaram para o e-mail da pesquisadora o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido que garante o sigilo ético através da não identificação dos sujeitos entrevistados que terão os seus nomes modificados.


Notisa – Quais foram os resultados observados?

Lívia – A novidade é que o clássico discurso de amizade, caracterizado por uma semântica que a qualifica em vínculo de familiaridade ou parentesco, atualiza-se nas relações entre amigos, que, diferentemente da prerrogativa de proximidade familiar, encontram-se distantes ou até mesmo nunca se encontraram face a face. De certo modo, a amizade travada através da internet se emancipa de uma maneira inédita da proximidade física entre os sujeitos. Com efeito, ainda que seja possível encontrar tal emancipação em amigos epistolares nos séculos anteriores, tais eventos eram relativamente isolados, insulares. A novidade trazida pela internet é o âmbito social que ela permitiu a tal emancipação da amizade frente às distâncias físicas.


Notisa – Isto interfere na amizade como era conhecida tradicionalmente?

Lívia – Tal desvinculação do espaço propiciou por seu turno novos rearranjos na semântica da amizade. Ainda que a articulação “amigo-irmão” apareça nas narrativas das amizades mediadas pela internet, reafirmando a semântica familialista permeada das noções de intimidade, afinidade, parentesco e proximidade, a referência às relações íntimas e próximas não concerne mais com a mesma conotação originária dos discursos tradicionais de amizade, diz respeito a um novo registro semântico. De certo modo, ampliou-se o espaço concedido à heterogeneidade no que se entende por “amigo-irmão”. As narrativas sobre as amizades mediadas pela internet trazem um novo horizonte de remodelagem da semântica familialista: o fato da intimidade e a proximidade prescindirem da convivência e até mesmo do prévio contato físico. Juntamente com a emancipação do espaço físico, a amizade através da internet tende a operar outras emancipações, a saber, a emancipação radical de qualquer contato visual e físico prévio. São os próprios sujeitos que se redefinem nesse novo contexto de interlocução à medida que passam a materializar-se única e exclusivamente pela palavra escrita. Tal economia de recursos para-comunicacionais abre novas possibilidades. As entrevistas revelaram que as relações entre amigos na internet abrem uma nova perspectiva na semântica familialista da amizade: é possível sentir-se íntimo e próximo de um amigo que está muito distante e cuja experiência de estar junto só fora vivida teclando no computador. A grande inovação é que o “amigo-irmão”, com o qual se estabelece uma relação de intimidade e confiança, pode nunca ter sido visto.


Notisa – A invisibilidade da internet permite o uso do disfarce. Como essa questão foi relatada ao longo da pesquisa?

Lívia – Com relação ao uso de nicks, é notável que a grande maioria dos sujeitos entrevistados afirme não utilizá-los em suas relações na internet, preferindo apresentar-se com o próprio nome quando querem conhecer novas pessoas no ciberespaço. Trata-se do interesse em fazer novos laços de amizades a partir de uma apresentação e comunicação autênticas muito mais do que se relacionar através de personagens. No que tange ao uso dos nicks nas relações mediadas pela Internet, então, o mais notável foi a expressividade do não emprego por parte da maioria dos entrevistados. De fato, é considerável a grande utilização do Orkut e do MSN Messenger, ambos os canais que dispensam o disfarce através de nicknames. A característica primordial do site de relacionamentos Orkut é a exposição do si mesmo; cada usuário cadastra-se através de seu perfil, com dados pessoais, como idade e profissão, além de informações sobre preferências musicais, literárias e gastronômicas, sendo possível exibir fotos e apresentar suas comunidades de interesse. E no MSN Messenger, canal de conversa on line através de trocas de mensagens instantâneas, só é possível comunicar-se com pessoas adicionadas à lista de contatos através do e-mail pessoal, o que pressupõe o prévio conhecimento ou consentimento para ser adicionado à lista. Assim, em geral, quando se trata de um desconhecido, é comum que os primeiros contatos sejam travados via Orkut e só posteriormente são trocados os e-mails pessoais para que os diálogos possam ser estabelecidos privativamente pelo MSN Messenger. Este movimento de passagem Orkut-MSN Messenger já revela em si mesmo o interesse em travar um início de amizade e parece ter se configurado como um caminho comum dos laços de amizades iniciados na internet. Se por um lado, a invisibilidade do interlocutor pode promover uma interlocução perpassada pela tensão duvidosa sobre a natureza ficcional ou não de seu discurso, paralelamente também favorece uma condição de maior abertura para conversas desinibidas e íntimas, o que permite a experimentação de novas facetas da subjetividade. Pode-se dizer que o meio virtual modifica, ainda que de modo sutil, uma certa economia das relações entre a confissão e o fingimento.


Notisa – Pode-se então afirmar que o que os olhos não vêem, o coração sente sim?

Lívia –A força dos afetos entre amigos que nunca se conheceram presencialmente e se vinculam pela internet fala da grandeza da capacidade de pôr em palavras e compartilhar a experiência existencial de estar no mundo como especificidade singular da humanidade do homem. As relações de amizade que nascem e se alimentam pelas conversas na internet iluminam a ordem discursiva da condição humana, ou seja, a beleza do fato de que somos tocados pelo enunciado do outro, de que a fruição da existência como ser humano se dá no processo mesmo de deciframento dos sentidos das enunciações proferidas no encontro inter-humano.


Notisa – Podemos falar que a internet modifica, de certa forma, a concepção de amizade?

Lívia – Os sujeitos falam da importância do amigo cujos encontros só se dão via internet, podendo ser estimado como um dos melhores amigos, e apontam para uma mudança da concepção da amizade, neste início de século 21: a amizade é um relacionamento que se dá cada vez mais no âmbito do compartilhamento e troca de ideias; o amigo não é necessariamente aquele que está ao lado, mas alguém com quem o estar junto se dá através da conversa, da permuta de opiniões, experiências e concepções de pensamento. A autenticidade dos afetos nas relações mediadas pela internet desvelada pelas narrativas revela uma nova maneira de estar junto na qual os sujeitos são mutuamente afetados pelas trocas simbólicas que se dão no registro discursivo das conversas on line. Os intercâmbios de experiências e opiniões suscitam transformações subjetivas que modificam formas de pensamento e que podem instaurar o aumento da potência de agir. Uma vez que nas relações de amizades mediadas pela internet os corpos são mutuamente afetados pelas ideias, valores e pensamentos expressos nas conversas on line, não se trata de uma condição de acorporeidade, mas sim de compreender a presença dos corpos implicados que se comunicam e encontram-se afetivamente ligados. Como demonstram as narrativas, trata-se de uma nova maneira de estar junto na qual os sujeitos são afetados no registro da subjetividade. Os sujeitos revelam o impacto da real presença do amigo com quem se conversa pela internet, destacam a importância da amizade mediada pela internet como relação de abertura e de confidências e ainda dizem o quanto são afetados por aquilo que o outro escreve bem como pelo vínculo de confiança que se tece. Ora, a presença do interlocutor nas relações de amizades mediadas pela internet condiz com a especificidade desse “exercício de tocar o outro”, onde a fruição do estar junto se dá na beleza do gesto de permitir-se afetar e ser afetado por outros corpos desejantes e pensantes.


Notisa – Como se dá essa questão da implicação política das amizades que intitulou sua tese?

Lívia – A experimentação política da amizade designa uma relação de abertura ao outro na qual os sujeitos desestabilizam e questionam seus pontos de vista – tal deslocamento de perspectiva, condição necessária para o salto qualitativo do pensamento, gera transformações subjetivas que podem ser potencializadas em suas habilidades e capacidade de agir. Trata-se de um vínculo onde os corpos são modificados por uma relação agonística na qual o contato com a alteridade permite deslocamentos e mudanças. As narrativas demonstram que os laços de amizades mediados pela internet configuram relações de intensas trocas afetivas nas quais os sujeitos são sensivelmente afetados por aquilo que o outro pensa e expressa através da palavra escrita. Os sujeitos falam da autenticidade dos afetos envolvidos nas relações de amizades travadas na internet que engendram transformações em suas capacidades de refletir e experimentar novas habilidades. Com efeito, os corpos são afetados pelas trocas de ideias e opiniões que podem instaurar o aumento da potência de pensar e de agir.


Notisa – Como assim?

Lívia – As relações de amizades mediadas pela internet têm como especificidade uma intensa troca de opiniões que mobilizam os amigos a refletir. Os corpos são instigados a pensar e encontram-se implicados no exercício político de considerar a opinião do outro. De fato, no âmbito das relações travadas pela internet, quando o interlocutor é considerado amigo é porque de algum modo aquilo que diz respeito ao registro de seus pensamentos e ideias já sensibilizou ou afetou o seu outro. As narrativas mostram que os vínculos de amizades travados na internet configuram relações de enriquecedoras trocas de opiniões e aprendizagens – inclusive de caráter transcultural, que propiciam a reflexão e relativização do pensamento. Os corpos consideram as ideias dos amigos que os potencializam em sua capacidade de pensar e refletir sobre si mesmos, contribuem para repensar comportamentos e valores bem como para reposicionar-se diante de uma tomada de decisão. Os sujeitos destacam que suas relações de amizades intermediadas na internet os ajudam a refletir sobre problemas e dúvidas e a compreendê-los, acrescentam novas experiências e conhecimentos que os fazem crescer e repensar a própria vida.


Notisa – A amizade virtual pode transcender a internet?

Lívia – Os orkontros – encontros dos participantes de uma determinada comunidade do Orkut – revelam que os laços de amizades travados no ciberespaço configuram significativas trocas de experiências e conhecimentos que transcendem o espaço da internet. As narrativas demonstram que as amizades mediadas pela internet potencializam os corpos a refletir e geram um alargamento das opiniões cujos desdobramentos trazem transformações relevantes para além do contexto das conversas on line, repercutindo na maneira de agir e de comunicar-se no cotidiano. O caráter solícito inerente à organização dos orkontros também permeia os intercâmbios de informações literárias, acadêmicas, musicais, entre amigos na internet cujos desdobramentos engendram a descoberta de novos interesses, a mobilização para buscar leituras aprazíveis, e experimentar novas atividades na vida cotidiana.


Notisa – Por exemplo...

Lívia – Os sujeitos entrevistados relatam que as amizades intermediadas no ciberespaço permitem o questionamento de seus valores, comportamentos e ideias, aguçam a curiosidade por novos interesses, movem a procura do aprimoramento do pensar, através da troca e indicação de textos, informações sobre música, literatura que contribuem para o aumento da potência de agir. Além da partilha de conhecimentos e experiências que viabilizam um estimulante espaço de aprendizagens, os laços entre amigos na internet também promovem ajuda orientada em favorecer o crescimento do amigo, incentivando-o a realizar seus desejos e reconhecer suas aptidões. Além das frutíferas trocas de conhecimentos, textos, experiências, favoráveis ao exercício político de considerar a opinião do outro – movimento que possibilita o aprimoramento do pensamento – as relações de amizades travadas no ciberespaço também compõem um espaço de acolhimento e de gestos solidários comprometidos com o querer bem ao amigo, contribuindo com o aumento de sua potência de ação. Os sujeitos mencionam que foi com o apoio e ajuda de amigos conhecidos na internet que conseguiram realizar importantes projetos de trabalhos e viagens. As narrativas revelam que muitos foram os projetos empreendidos, sonhos concretizados, atividades retomadas, eventos realizados a partir de uma ideia de um amigo, de seu incentivo, de sua colaboração ou ajuda. As amizades travadas na internet desvelaram relações de abertura e confiança onde afloram o compartilhamento de opiniões, conhecimentos e experiências que capacitam os corpos a pensar. Os vínculos entre amigos na internet não só se expressaram como viabilizadores da experimentação da qualidade política da amizade naquilo que concerne à possibilidade de deslocamento e relativização do pensamento, mas também porque engendraram gestos com o vigor da solidariedade inspiradores da vontade e coragem para ação.

Agência Notisa (science journalism – jornalismo científico)